A transferência do salesiano Ir. Armando Catrana, de 87 anos, para Campo Grande provocou uma onda de comoção em Três Lagoas que ultrapassou os muros da Igreja e atingiu profundamente o coração de jovens, educadores, famílias, voluntários e lideranças comunitárias. A mudança ocorreu de forma repentina na última quinta-feira (22), mas só foi comunicada oficialmente na segunda-feira (26), aumentando o sentimento de surpresa, tristeza e indignação entre aqueles que caminharam ao seu lado por décadas.
Para muitos, a notícia soou como uma despedida que ninguém estava preparado para viver. Não se tratava apenas da transferência de um religioso, mas do afastamento de alguém que se tornou parte da identidade da cidade, um homem cuja presença moldou histórias, restaurou sonhos e ofereceu sentido a vidas que pareciam sem direção.
Natural de Perugia, na Itália, Armando iniciou sua trajetória ainda jovem. No dia 15 de agosto de 1962, ingressou na Congregação Salesiana, deixando para trás uma carreira estável como bancário e uma vida promissora como atleta. O que o moveu não foi a segurança, mas o chamado. Um chamado silencioso, profundo, que o levou a escolher os jovens como missão e a educação como forma de amor concreto.
Em 16 de agosto de 1963, deu início oficial à vida religiosa. Antes de chegar ao Brasil, atuou em diversos oratórios salesianos na Itália, onde aprendeu que educar não é apenas ensinar, mas estar presente, escutar, caminhar junto e acreditar quando ninguém mais acredita.
Em maio de 1968, atendeu ao convite missionário e atravessou o oceano para viver no Brasil. Passou por cidades como Poxoréu, Guiratinga, Barra do Garças, Corumbá e Campo Grande, sempre levando consigo o mesmo propósito: formar cidadãos honestos e jovens conscientes de seu valor. Mas foi em Três Lagoas que sua missão encontrou chão, rosto e nome.
Em abril de 2002, ao conhecer a cidade, Ir. Armando visitou a Vila Piloto e ali enxergou o que muitos não viam. Viu crianças sem oportunidades, adolescentes expostos à vulnerabilidade social e famílias enfrentando dificuldades silenciosas. Onde havia carência, ele viu potencial. Onde havia abandono, ele enxergou futuro.
Daquele encontro nasceu um sonho que se tornaria realidade no ano seguinte. Em 2003, o município cedeu uma área de aproximadamente 50 mil metros quadrados para a instalação da Missão Salesiana. Com o apoio de amigos italianos, mais tarde conhecidos como AmiciArmando, surgiram o Centro Juvenil Jesus Adolescente, inaugurado em 2004, e o Centro de Formação Profissional, entregue à comunidade em 2005.
O que começou como um projeto social tornou-se, ao longo de mais de duas décadas, uma verdadeira casa de acolhimento. Oficinas profissionalizantes, cursos técnicos, formação humana, espiritualidade e acompanhamento pessoal passaram a fazer parte da rotina de centenas de jovens que encontraram ali não apenas aprendizado, mas pertencimento.
Ir. Armando nunca foi um gestor distante. Caminhava pelos corredores, conhecia cada história, perguntava pela família, pelo rendimento escolar, pelos desafios dentro de casa. Seu cuidado ultrapassava qualquer função institucional. Para ele, nenhum jovem era número. Todos tinham nome. E mais do que isso: todos eram chamados de “filho”.
Essa palavra simples atravessou gerações. Hoje, homens e mulheres formados pelo Centro Juvenil ainda se emocionam ao ouvir alguém chamá-los assim. Muitos construíram carreira, família e dignidade a partir da primeira oportunidade recebida naquele espaço.
Mesmo aos 87 anos, com as limitações naturais do envelhecimento, Ir. Armando seguia presente. Com lapsos de memória e dificuldades de locomoção, era acompanhado por cuidadores e mantinha boa qualidade de vida, cercado por aqueles que sempre foram sua família espiritual.
Por isso, sua transferência repentina causou tamanha dor. Segundo a Missão Salesiana, a mudança ocorreu por motivos de saúde. Pessoas próximas, no entanto, relatam que os cuidados necessários poderiam continuar sendo prestados em Três Lagoas, no local onde ele construiu praticamente toda a sua vida missionária.
Para a comunidade, o que está em jogo vai além de uma decisão administrativa. Trata-se do direito de um homem envelhecer onde amou, onde serviu e onde dedicou cada dia de sua existência.
Diante disso, jovens, educadores, ex-alunos, voluntários e fiéis iniciaram uma mobilização pacífica, baseada na fé, na oração e no diálogo. Não há confronto, não há revolta institucional. Há gratidão. Há reconhecimento. Há amor.
O movimento será realizado nesta quinta-feira, 29 de janeiro, às 19h30, no Centro Juvenil Jesus Adolescente, um Terço pelo Retorno de Ir. Armando Catrana. Um gesto simples, mas carregado de significado, que representa o desejo coletivo de vê-lo novamente em sua verdadeira casa: a Vila Piloto.
Enquanto aguardam uma possível reavaliação da decisão, a comunidade permanece unida. Jovens rezam por aquele que acreditou neles quando ninguém mais acreditava. Famílias recordam o apoio recebido nos momentos mais difíceis. Líderes religiosos reconhecem que sua história é exemplo vivo do carisma salesiano em sua essência mais pura.

Bene mi sembra la strada giusta, siate costanti nella vostra posizione fino a quando Armando non sarà riportato alla sua OPERA. Un abbraccio a tutti voi.
Faccio parte del “gruppo amici Armando Italia, la notizia del trasferimento di Armando in casa di riposo mi ha colpito e indignato. Armando, grande uomo e cristiano esemplare e coerente con l’insegnamento del vangelo, non meritava un simile tradimento. In casa di riposo muore, uno come lui deve tornare al suo centro costruito con decenni di impegno totale e con l’aiuto di tanti di noi che sono stati affascinati dalla sua figura. I responsabili di questo trasferimento hanno tradito non solo Armando, non solo tutti coloro che hanno sostenuto il Centro anche economicamente, ma hanno tradito il vangelo. Vergogna.